Ativa no seu ofício nestes quase 70 anos de arte, e com a disposição de quem está sempre pronta para o próximo projeto, a artista visual gaúcha Clara Pechansky recebeu a Only&Onne para conversar sobre sua trajetória profissional, vivências e parcerias. Natural de Pelotas/RS (1936), seu caminho no mundo das artes se iniciou na adolescência, mas os lápis e as tintas já ocupavam considerável parte dos dias ainda criança, sinalizando que traços, observação e cores iriam muito além de um entretenimento ou tarefa escolar. Algo dizia que um futuro começava a ser desenhado para a pequena Clara - Clarita, Ita para a família e os amigos. A atração pela paleta passou a ganhar uma dimensão maior ao buscar técnicas e conhecimento quando ingressou na Escola de Belas Artes da sua cidade.
Mãe dedicada de Rubem e Flavio, que pôde acompanhar o crescimento dos meninos pela casa, conciliando as atividades de ilustradora por encomenda, é uma avó orgulhosa de Ana Carolina, Leonardo, Artur e Daniela. Foi casada por 69 anos com o psicanalista Isaac Pechansky (1926-2025), grande parceiro de vida, de trocas intelectuais, 89 viagens documentadas pelo mundo e a paixão mútua por música clássica.
Em sua trajetória profissional, Clara sedimentou seu nome em mais de 70 exposições individuais em galerias e museus, no Brasil e no exterior. Participou de mais de 200 exposições coletivas, bienais e trienais de desenho e arte gráfica em 17 países ao longo da carreira. Recebeu prêmios e reconhecimentos internacionais e homenagens, como do Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, em Porto Alegre, instituição que ajudou a fundar; da Fundação Chico Lisboa, da qual atuou na gestão; da Universidade Autónoma de Sinaloa, no México. Admirada pelos seus pares, é uma das grandes incentivadoras da promoção da arte brasileira pelo mundo. No campo da produção cultural, atua em projetos de disseminação da cultura em suas mais diversas manifestações, como artes visuais, textos, livros, palestras, com destaque para iniciativas como o Projeto Miniarte Internacional, Fiesta de Paz, Projeto Ensaio, Artistas da Vida. Os temas e os personagens trabalhados em suas telas e gravuras, por vezes, acompanham questões contemporâneas do mundo na época em que foram criadas. O Mágico, o General, o Candidato, a Dama e o Quixote foram desenvolvidos no período dos Anos de Chumbo, por exemplo. Destaca-se, ainda, “Anjos Tecnomitológicos”, quando recebeu o primeiro ensaio crítico sobre sua obra, na lavra do amigo Armindo Trevisan; casais bíblicos; família; lirismo feminino; enigmas; entre tantos exercícios gráficos expressos. Também se inserem pinturas, desenhos e gravuras que trazem releituras e interpretações de criações que Clara admira, como o “Casal Arnolfini”, de Jan Van Eyck, e “La Maja”, de Goya.
É autora e coautora de livros com textos e ilustrações, como “Variações sobre o Enigma”; “A face escondida da criação”; “Olhar estrangeiro: México”; “Cirandas de Villa-Lobos – Reinvenções”; “A Poesia na Bíblia”, de Armindo Trevisan; bem como é personalidade tema de obra, a exemplo de “Clara, Clarita, Ita”, de Christina Dias; “O traço afetuoso”, de Liana Timm.
Em comemoração aos 29 anos da Galeria Gravura, em Porto Alegre, lançou a coleção inédita “Hino”, com curadoria de Marô Barbieri, propondo uma releitura visual de símbolos gaúchos e brasileiros. “Acompanhei a tragédia climática que assolou o nosso estado, vi o quanto somos unidos frente a tudo que aconteceu. Criei a série para exaltar esse sentimento de pertencimento e reconstrução”, ressalta a artista.
Enfatiza-se, também, a parceria da artista com a Galeria Gravura, que inicialmente divulgava apenas múltiplos de arte, até que, dois anos após sua inauguração, fez a primeira exposição de peças únicas, sendo Clara Pechansky a autora convidada, e uma amizade que atravessa décadas.
Trouxemos, aqui, alguns momentos com a artista.
Como era o ambiente em que você cresceu? “Venho de uma família de origem judaica. Sou a filha caçula de Valodja e Sarah. Meu pai veio de Voronovitza. Ele chegou com um irmão, fixaram-se, primeiramente, no Rio de Janeiro. Minha mãe aportou no Brasil ainda criança; era de Novo Konstatinov; ambas as cidades pertenciam à Rússia, atualmente fazem parte da Ucrânia. Meus pais se conheceram em Pelotas e casaram-se em 1927. Eu e minhas irmãs Geny e Celia crescemos em um lar harmonioso. Canto e piano incorporavam-se aos momentos de descontração em casa. O rádio era um veículo importante na época, preenchia as horas com notícias e músicas, principalmente tangos e boleros, pela facilidade de captar sinais da Argentina e do Uruguai. Minha família era proprietária de lojas de tecidos. Lembro de brincar e desenhar nesses espaços de trabalho do meu pai e do meu avô. O judaísmo como religião era pouco presente, mas os valores que ele traz, como a família sempre unida, ainda são uma referência importante. Eu sempre fui muito curiosa por tudo que fosse bonito, cativante e que me instigasse de alguma maneira. Aprendi a ler sozinha. Amava frequentar a biblioteca da cidade, onde comecei com a literatura infantil. Me inscrevia em concursos de desenho na escola, estava seguidamente retratando pessoas nos meus cadernos, principalmente o meu núcleo doméstico. Com incentivo da bibliotecária, criava peças de teatro, cenários, dirigia, me envolvia com esse universo com intensidade. Nossa garagem de casa era movimentada de encontros assim na adolescência.”
Pintar e desenhar foi além de um passatempo. Estavas decidida a seguir o caminho das artes visuais como profissão?
“É normal as crianças adorarem desenhar, o que não significa que todas sigam essa prática como profissão. Quis estudar para aprender técnicas, aperfeiçoar o conhecimento em desenho, pintura, observação. Terminei o Curso Ginasial aos 14 anos, quase 15. Recém-formada, descubro que existe uma instituição chamada Escola de Belas Artes [incorporada posteriormente pela Universidade de Pelotas]. Vou até lá sozinha, me apresento à Dona Marina de Moraes Pires e digo: ‘quero estudar aqui’. Então ela pergunta: ‘você desenha?’. Respondi afirmativamente. Ela propõe: ‘a escola ainda não é reconhecida pelo Ministério da Educação, por enquanto é um curso livre. Se eu achar que você pode entrar, você faz um teste?’. Concluí o teste em que ela dispunha diversos objetos, como um lápis e um papel, sobre uma grande mesa. Possuo esse desenho guardado em meus catálogos, com carinho. Fui aprovada no exame e, aos 15 anos, com o Ginasial concluído, iniciei na Escola de Belas Artes. À noite, fazia o Clássico, que era o segundo grau. A Dona Marina também era professora de desenho. O curso oferecia todas as disciplinas necessárias, como geometria, geometria analítica, geometria descritiva, que são parte real do currículo de uma escola de arte. Quando terminei o Clássico, a Escola de Belas Artes já tinha sido reconhecida. Recebi o diploma de Bacharel em Pintura aos 19 anos.”
“Ainda nessa escola, estava desenhando quando um homem alto e simpático, com sotaque estrangeiro, me viu desenhar. Era o italiano Aldo Locatelli [1915-1962]. Ele pegou minha mão e me levou para a sala da frente. Lá estavam Hilda Mattos, Jader Siqueira e Benette Casaretto Motta. Eram artistas reconhecidos, que decidiram oficializar sua formação com um diploma. Ele me deu uma prancheta e disse: ‘vem todos os dias aqui que eu vou te ensinar a desenhar’.”
“Tive o privilégio de frequentar suas aulas de pintura por três anos. Quando cheguei, a escola oferecia um curso seriado de cinco anos. Eu havia concluído o Clássico e feito vestibular para Línguas Neolatinas e Anglo-Germânicas. No meio de tudo isso, continuava na Escola de Belas Artes, onde também fui vice-presidente do Centro Acadêmico. No terceiro ano, era necessário escolher entre pintura ou escultura, pois você se tornaria bacharel em uma delas. Optei pela pintura, no entanto, bem nessa época, Locatelli muda-se para Porto Alegre e torna-se docente do Instituto de Artes [UFRGS].”
[Aldo Locatelli veio ao Brasil para pintar afrescos da Catedral Metropolitana de Pelotas, tendo se estabelecido no país. Como muralista, destacam-se pinturas no Palácio Piratini; na Igreja São Pelegrino, em Caxias do Sul; no antigo prédio do aeroporto Salgado Filho, entre outras obras.]
Conte sobre a mudança para Porto Alegre e o início da carreira:
“Estava formada, tendo recebido uma medalha de ouro da Escola de Belas Artes, e recém-casada com Isaac, em 1957. Nos mudamos para a capital. Fui apresentada a amigos do meu marido como o jornalista Roberto Eduardo Xavier, que costumava reunir Xico Stockinger [escultor], Josué Guimarães [escritor]. Eles conversavam sobre literatura, escreviam contos, eu e Xico fazíamos xilogravura. Minha primeira experiência com essa técnica foi ele quem me ensinou.”
“Ainda no início, em Porto Alegre, liguei para Locatelli: ‘mestre, estou morando aqui’. E assim, fiquei quase dois anos aprendendo pintura em seu ateliê. Nessa época, ele estava trabalhando nos murais da Igreja São Pelegrino, em Caxias do Sul, e na Reitoria da UFRGS.”
“Meu conterrâneo pelotense Paulo F. Gastal convidou-me para ilustrar textos para o jornal Correio do Povo. Também trabalhei para a Folha da Manhã e ilustrei o Suplemento Infantil da Folha da Tarde. E assim foram surgindo oportunidades. Mas foi em uma livraria onde expus pela primeira vez, a Leonardo Da Vinci, no Centro Histórico, em 1959. Os desenhos retratavam meninos de rua. Uma das pessoas que visitou a exposição foi a artista visual Alice Soares, que me convidou a integrar o Grupo de Trabalho em Modelo Vivo.”
“Complementam a minha jornada, agências de publicidade, bem como a saudosa Livraria do Globo, que tinha um papel editorial extremamente relevante no Brasil. Por sugestão de uma prima, me apresentei ao senhor Henrique Bertaso, proprietário da Livraria e Editora. Em uma segunda visita à livraria, passei por um teste: recebi os originais de “O condenado”, de Graham Greene. Depois disso, acredito que eu tenha feito mais de 70 capas para a Globo.”
Um artista está sempre em aprendizado. Quando a pessoa se identifica como artista?
“O artista utiliza um dom ou uma vocação que nasce com ele ou que vai aprimorando ao longo da vida. Mas, assim como o artista tem que ter alguma tendência, seja para a música, as artes visuais também requerem. Isso não vem pelo astral, nem da noite para o dia. Na maioria das vezes, tu nasces artista e mais tarde tu te identificas como tal, pois adquiriste um repertório. Aí tu aceitas e assumes a identidade de artista.”
“Estudar, praticar e estudar. Completei a graduação em Licenciatura com ênfase em Desenho e História da Arte na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Concluí cursos de extensão voltados para a educação audiovisual. Depois do ateliê de Locatelli em Porto Alegre, fiz cursos com orientação de Glenio Bianchetti, Glauco Rodrigues, Fernando Báril, Carlos Pasquetti, Danúbio Gonçalves, Anico Herskovits. No campo tridimensional, sem o objetivo de ser escultora, mas para ver como ficariam certos ângulos dos meus desenhos, aprendi cerâmica com Marlies Ritter, escultura com Caé Braga, papel machê com Cho Dornelles.”
“Também orientei. No colégio João XXIII, onde meus filhos estudaram, fiz parte da equipe do Departamento de Integração Artística e Cultural da instituição, tendo trabalhado de 1968 a 1985. Era uma época em que não havia quase material didático nem profissionais especializados. Ajudei a criar o currículo, incluindo atividades, escolinha de arte, audiovisual. E assim, disciplinas como artes visuais, música, dança, teatro etc. passaram a compor a grade. Além do João XXIII, ensinei pintura e desenho em meu ateliê no bairro Bom Fim durante 21 anos.”
Você segue uma rotina para desenvolver suas pinceladas e desenhos?
“De segunda a domingo posso estar criando. A música é uma companheira sempre. Escuto muito a Whisperings: Solo Piano Radio. Costumo iniciar várias telas ao mesmo tempo, sem traçar esboço antes. Rabisco e deixo fluir.”
“Outro ponto é a tal da inspiração. Eu não gosto dessa palavra, pois tudo inspira. Então, esse negócio de dizer ‘eu preciso me inspirar’ para fazer um quadro, não, não é assim. Eu não tenho medo da tela branca. Ensinei meus alunos a não temerem. Rabisque, solte, deixe sair. A tela branca não pode ser um desafio, ela é um suporte. Tu não vais fazer uma obra-prima por dia; isso precisa estar claro. Esse processo de rabiscar não varia. O que varia é que, a cada dia, tu és outra pessoa. Porque, de hoje pra amanhã, tu vais adquirir um monte de informações. Vais conhecer mais pessoas, vais ter novas vivências. Algo será diferente de hoje pra amanhã. Então, hoje tu terminas um quadro e consegues um efeito que te agrada. Aí tu pensas: ‘era exatamente isso que eu queria. Ficou bom, gostei’. No dia seguinte, tu pegas outra tela e queres repetir aquele efeito e desistes, porque tu és outra pessoa.”
A Miniarte é um projeto que vem ganhando novidades e adaptações, quando necessárias, a cada edição. Fale sobre ela e outras iniciativas. “Em 2003, lancei o Projeto Miniarte Internacional, convidando artistas do Brasil e de outros países a enviarem obras de pequenas dimensões, as quais seriam expostas. De lá para cá, são 52 exposições completadas até o final de 2025, com mais de uma edição em alguns anos, exibindo obras de artistas reconhecidos e também de quase anônimos. Inicialmente, elas tinham 20cm x 20cm. Depois, fiz ajustes nas dimensões, e sempre com muitos participantes. Materializamos a Miniarte em 20 países nos cinco continentes, com a participação de mais de 3000 artistas. Veio a pandemia, e adaptei o formato para o digital. Os artistas passaram a enviar fotos de suas obras. Consegui manter a continuidade do projeto graças aos recursos digitais. Retomamos a exposição física. E, desde a enchente de 2024, passamos a incluir textos. Com uma edição programada para novembro de 2025 na Galeria Gravura, em Porto Alegre.”
“Entre outras iniciativas das quais tive grande satisfação em concretizar, a exposição ‘Clara Pechansky y sus amigas’, em 2020, quando convidei 33 mulheres para expor na Galeria Frida Kahlo, na Universidade de Sinaloa, no México, abrindo oportunidades para artistas fora do Brasil. Aprecio incluir colegas brasileiros em eventos internacionais. Sinto orgulho em apresentar a nossa arte no exterior. Também criei o Projeto Fiesta de Paz, que acontece entre o Brasil e um país que seleciono a cada edição, reunindo brasileiros e o país escolhido. Embora com menor frequência que a Miniarte, ele ainda acontece eventualmente.”
Para acompanhar Clara Pechansky, bem como as convocatórias para a Miniarte, acesse www.pechansky.com.br e https://www.miniartex.org/, que nesta recente edição traz a temática “Surreal”, com lançamento na Galeria Gravura.
Clara Pechansky
@clarapechansky