Há momentos em que o mundo parece nos convidar a fechar as portas. O mercado desacelera, os consumidores ficam mais cautelosos, os custos aumentam, as notícias econômicas assustam e o futuro parece ter adquirido o péssimo hábito de não avisar para onde está indo.
Nessas horas, a primeira reação de muita gente é cortar. Cortar despesas, investimentos, pessoas, ideias, sonhos.
Mas talvez exista uma coisa que não deveríamos cortar jamais: a capacidade de ouvir.
Porque, quando o mercado fica recessivo, talvez a pergunta mais importante não seja “o que podemos vender?”, mas sim: “o que as pessoas estão precisando ouvir?”
E existe uma diferença enorme entre escutar e ouvir.
Escutar é captar um som. Ouvir é prestar atenção ao que está por trás dele. Um cliente que diz “está caro” talvez não esteja falando apenas de preço. Pode estar dizendo que não percebeu valor. Um cliente que diz “vou pensar” talvez esteja dizendo que ainda não encontrou segurança. Um consumidor que desaparece pode estar silenciosamente avisando que alguma coisa deixou de fazer sentido.
O bom vendedor escuta a objeção. O excelente profissional ouve a necessidade escondida dentro dela. Quando todos estão tentando falar mais alto, quem aprende a ouvir se torna inesquecível. Isso vale para uma empresa. Vale para uma marca. Vale para uma relação amorosa. Aliás, talvez relacionamento seja o melhor curso de vendas que existe.
Imagine um casal. Um chega em casa e pergunta: — Como foi seu dia? O outro responde: — Foi difícil. E então vem aquela resposta clássica: — O meu também. Fim da conversa.
Agora imagine outra possibilidade: — Como foi seu dia? — Foi difícil. — Me conta, o que aconteceu? De repente, abre-se uma porta.
Porque perguntar é demonstrar interesse. E continuar ouvindo é demonstrar importância.
No amor, assim como nos negócios, as pessoas não querem apenas ser atendidas. Querem ser compreendidas. Uma marca pode ter o melhor produto, o melhor preço, a melhor embalagem e a melhor campanha publicitária. Mas, se não souber ouvir seu consumidor, será apenas mais uma marca disputando atenção.
As marcas que despertam paixão fazem algo diferente. Elas criam intimidade. Percebem detalhes. Antecipam desejos. Lembram preferências. Resolvem problemas antes que eles se transformem em reclamações. Fazem o cliente sentir que não é apenas um número no sistema, mas alguém que importa. E quando uma marca consegue provocar esse sentimento, acontece algo extraordinário: o consumidor deixa de comprar apenas o produto e passa a comprar a história, a experiência e a sensação de pertencer.
É assim que nasce a paixão por uma marca. E paixão, convenhamos, não se constrói com desconto. Constrói-se com atenção.
Por isso, estreitar uma relação comercial exige uma mudança simples de comportamento: parar de pensar exclusivamente naquilo que queremos vender e começar a prestar atenção naquilo que o outro deseja receber.
Quer surpreender um cliente? Lembre-se de algo que ele comentou meses atrás. Antecipe uma necessidade. Faça uma gentileza sem que ele tenha pedido. Envie uma mensagem quando não houver nenhuma venda envolvida. Resolva um problema com rapidez. E, principalmente, não apareça somente quando quiser alguma coisa.
Porque mercados mudam. Economias oscilam. Tendências desaparecem. Concorrentes surgem. Mas alguém que se sente verdadeiramente ouvida dificilmente esquece quem a ouviu.
Marcelo TovoEditor da Onne & Only, publicitário, especialista em Marketing e Gestão de Negócios, palestrante e consultor.@marcelotovo