Adestramento – Sandro Philippsen

O QUE SEU CÃO ESTÁ TENTANDO DIZER?

O QUE SEU CÃO ESTÁ TENTANDO DIZER?

Fotos: Diogo Sallaberry - Sandro Philippsen
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Nunca estivemos tão próximos dos cães e, talvez, nunca tenhamos exigido tanto deles. Antes de corrigir um comportamento, é preciso compreender o que existe por trás dele.

Ele puxa a guia, late, pula nas visitas, não volta quando é chamado ou reage a outros cães. Para muitas famílias, a conclusão é imediata: “meu cão está se comportando mal”. Eu prefiro começar por outra pergunta: o que esse comportamento está comunicando? Em minha experiência, trabalhando diariamente com cães e seus tutores, destaco que boa parte dos conflitos entre as duas espécies não começa na desobediência, mas na interpretação.

Fotos: Diogo Sallaberry - Sandro Philippsen

O COMPORTAMENTO É INFORMAÇÃO

Cães não dizem em palavras que estão inseguros, frustrados, excitados ou com medo. Eles demonstram por meio da postura, do olhar, da movimentação e da maneira como reagem aos estímulos. O comportamento é uma forma de linguagem. O problema começa quando tentamos traduzi-la exclusivamente a partir de referências humanas. É quando surgem rótulos como “teimoso”, “ciumento”, “dominante” ou “desobediente”.

Um cão que late excessivamente pode estar reagindo a diferentes estímulos. Aquele que puxa no passeio talvez ainda não saiba lidar com as informações presentes na rua. Já o cão que obedece em casa, mas parece “esquecer tudo” ao sair, pode não estar preparado para responder da mesma forma em um ambiente mais complexo.

O comportamento pode ser semelhante. A causa, não. Compreender essa diferença é o que separa uma correção superficial de um processo consistente de educação.

Fotos: Diogo Sallaberry - Sandro Philippsen

PRIMEIRO, ENTENDA. DEPOIS, ENSINE.

Foi a partir dessa visão que desenvolvi o AP Connection, sistema de ensino canino baseado em um princípio: antes de escolher a técnica, é preciso compreender o indivíduo. Não acredito em excelência quando cães diferentes são submetidos à mesma fórmula. Cada animal traz características, experiências, sensibilidades e uma relação particular com sua família e o ambiente. Compreender não é permitir tudo. Compreender é saber melhor o que ensinar. Depois de mais de 25 anos dedicados ao comportamento e à educação de cães, uma convicção se tornou clara: excelência não está em controlar cada movimento do animal, mas em construir uma comunicação capaz de produzir confiança, clareza e equilíbrio. Talvez a evolução mais sofisticada do treinamento canino não esteja em ensinar nossos cães a compreender mais palavras humanas, mas em ensinar os humanos a compreender melhor aquilo que os cães já vêm dizendo há milhares de anos.

AMAMOS MAIS. MAS ENTENDEMOS MELHOR?

Os cães deixaram o quintal, ocuparam a sala, chegaram ao sofá e, em muitas casas, também à cama. Viajam conosco, frequentam hotéis e restaurantes e participam da vida familiar. Essa proximidade revela uma contradição: humanizamos cada vez mais os cães sem necessariamente compreendê-los melhor como cães. Amor, conforto e presença são importantes, mas não substituem clareza, educação e referências consistentes. Amar profundamente um cão não significa, automaticamente, saber conduzi-lo.

OBEDIÊNCIA NÃO É EQUILÍBRIO

Senta. Deita. Fica. Junto. Aqui. Comandos têm valor, mas não definem, sozinhos, um cão educado. Um animal pode obedecer perfeitamente e ainda não saber lidar com frustrações, estímulos ou situações da vida cotidiana. Por isso, faço uma distinção fundamental: Obedecer é executar. Educar é preparar para a vida. E existe alguém do outro lado da guia. O tutor também precisa aprender a observar, antecipar situações, reconhecer sinais e comunicar-se com clareza. Educar um cão também significa educar o olhar de quem o conduz.

(*) Sandro Philippsen, especialista em comportamento e educação canina, fundador da POA Dogs Adestramento de Cães e criador do AP Connection.

@sandrophilippsen