“Em algum lugar, algo incrível está esperando para ser descoberto.” - Carl Sagan
A ciência acaba de cruzar uma fronteira que a humanidade nunca imaginou atravessar tão cedo: a reversão do envelhecimento celular. E eu precisava escrever sobre isso.
Pela primeira vez na história, cientistas estão prestes a dizer ao corpo humano para ser jovem novamente. Não metaforicamente ou com cremes e suplementos, mas com reprogramação genética. Com a reescrita do código que diz às nossas células quem elas são e como devem se comportar.
Cada célula do nosso corpo carrega exatamente o mesmo DNA. O que muda de uma célula para outra, de um órgão para outro, não é o código genético em si. É o que está por cima dele. O epigenoma, uma camada de marcadores moleculares que funciona como um painel de controle, decidindo quais genes se acendem e quais permanecem apagados. É ele que faz uma célula do fígado ser diferente de uma célula do coração, mesmo que o DNA seja idêntico. O problema é que, conforme envelhecemos, esse painel vai perdendo a precisão. Os marcadores se embaralham, as instruções ficam confusas e a célula começa a esquecer como ser jovem.
Foi o cientista japonês Shinya Yamanaka quem descobriu que quatro fatores específicos conseguem rebobinar esse relógio celular, levando qualquer célula de volta ao estado de célula-tronco. Uma descoberta que lhe rendeu o Nobel. O problema era que usar os quatro fatores juntos era arriscado demais. Podia induzir ao câncer. A virada veio quando pesquisadores perceberam que três desses fatores, OCT4, SOX2 e KLF4, sem o quarto e mais perigoso, conseguem rejuvenescer as células sem apagar sua identidade. A célula não volta a ser uma célula-tronco. Ela continua sendo exatamente o que é. Só que mais jovem. Com a memória restaurada de como funcionar bem. Os primeiros testes aconteceram com células da retina de primatas com perda de visão relacionada ao envelhecimento. A visão voltou. Depois vieram outros animais, e os resultados se repetiram.
Agora chegamos ao momento que muda tudo. A empresa Rejuvenate Bio iniciou ensaios clínicos em humanos, injetando diretamente no olho um vetor viral que carrega esses três fatores para tratar doenças do nervo óptico. É a primeira terapia de reprogramação celular já testada em pessoas. E está funcionando. Paro aqui um segundo porque preciso que você entenda o que isso significa. Não estamos falando de retardar o envelhecimento. Estamos falando de reverter danos já instalados. De ensinar células que esqueceram como ser saudáveis a lembrar novamente. Eu tenho pensado muito nisso. Na quantidade de doenças que têm o envelhecimento celular como raiz. Alzheimer, doenças cardiovasculares, degeneração muscular, perda de visão... Se a célula pode ser reprogramada para funcionar como jovem, o que acontece com essas doenças?
A ciência não responde ainda. Os ensaios são recentes, os resultados promissores, mas ainda iniciais. Há décadas de pesquisa pela frente antes que isso chegue como terapia acessível e ampla. Mas o momento já aconteceu. A fronteira já foi cruzada. E eu, que acompanho comportamento, cultura e as transformações que moldam a forma como vivemos, reconheço quando o mundo muda de eixo. Essa é uma dessas vezes.
Não sei o que a ciência vai conseguir entregar ainda na minha geração. Mas sei que estou viva para ver o começo de algo que vai redefinir o que significa envelhecer. E isso, por si só, já é extraordinário.
Como Sagan dizia: em algum lugar, algo incrível estava esperando para ser descoberto.
Encontramos.
(*) Simone Pontes, socióloga, jornalista, CEO da TAB Marketing Editoria e muito interessada na vida.
@simonepontes