Geografia privilegiada e atrativos perenes de história e arte como o Palazzo Ducale e a famosa coleção Peggy Guggenheim Collection contracenam a cada dois anos com a monumental Bienal de Veneza que, nesta 61ª edição, até 22 de novembro atrai literalmente o mundo das artes para as questões atuais convertidas em obras. Esta Bienal acrescenta caráter emocional pela curadora geral ter falecido pouco depois de ter concluído o projeto curatorial da mostra, em maio de 2025, aos 57 anos. A morte da intelectual e curadora camaronesa-suíça Koyo Kouoh transformou a exposição aberta, um ano depois, em uma espécie de legado póstumo, conferindo ainda mais densidade ao conceito sob o título In Minor Keys (Em Tons Menores).
Sua proposta, em exibição desde maio, propõe justamente uma desaceleração diante da saturação imagética contemporânea. Em vez de obras que gritam, Kouoh reuniu artistas com trabalhos que convidam à contemplação, à escuta e à reflexão sobre fragilidade, pertencimento, ancestralidade e memória.
É importante referir ter sido Koyo a primeira mulher africana convidada a dirigir artisticamente a principal mostra da Bienal. Diretora executiva do Zeitz Museum of Contemporary Art Africa, na Cidade do Cabo, construiu ao longo de sua trajetória um pensamento curatorial profundamente conectado às narrativas do sul global, às memórias coloniais, às questões raciais e às formas de resistência cultural silenciosa.
Giardini e Arsenale, epicentros da Bienal, recebem obras de artistas vindos de diferentes geografias, numa edição marcada pela diversidade de linguagens e pela forte presença de artistas africanos, latino-americanos e asiáticos. Entre instalações imersivas, vídeos, pinturas, esculturas e performances, a mostra reafirma o deslocamento do eixo tradicional da arte europeia para uma visão mais plural e descentralizada do contemporâneo.
O pavilhão do Brasil apresenta “Comigo ninguém pode”, sob curadoria de Diane Lima. Claro que, nesse contexto, a proposta brasileira está marcada pela presença de Adriana Varejão, reconhecida mundialmente por uma produção que investiga as feridas históricas do colonialismo, da miscigenação e das estruturas de poder. Em sua obra, pintura, arquitetura e matéria dialogam com a memória do barroco, da azulejaria portuguesa e da violência inscrita na formação cultural brasileira. Adriana propõe aproximar corpo e arquitetura, com paredes que parecem carregar cicatrizes e os volumes escultóricos lembrando carne, ruína e vestígios arqueológicos.
Até a planta que dá título, “Comigo ninguém pode”, tem a função de metáfora de sobrevivência cultural diante da violência histórica unindo duas artistas que merecem ser destacadas: Adriana Varejão e Rosana Paulino, também integrante do pavilhão brasileiro. Rosana contribui com reflexões sobre ancestralidade negra, memória e reparação histórica. Juntas, as duas constroem uma narrativa poderosa sobre identidade, resistência e permanência.
Questões como crise climática, deslocamentos humanos, espiritualidade e complexidades culturais são os temas em geral que dão vida às propostas desta edição de La Biennale di Venezia.
(*) Cézar Prestes, gestor cultural, marchand e curador. Teve atuações como Secretário de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, diretor do Departamento de Patrimônio Histórico, Museus e Arquivos do RS, Museu de Arte do RS Ado Malagoli (MARGS), diretor e curador do Centro Cultural Aplub e das suas galerias Grafite e Cézar Prestes Artte. Entre suas ações, como diretor do MARGS, realizou a exposição Arte na França, que atraiu 37 mil visitantes do Brasil e do exterior.
@cezarprestes