Vinhos Naturais – Cristian Silva

A NOVA FRONTEIRA DO ENOTURISMO NO BRASIL: O RIO DE JANEIRO

A NOVA FRONTEIRA DO ENOTURISMO NO BRASIL: O RIO DE JANEIRO

Cristian Silva* - Foto: Diego Frigo
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Temos sido bombardeados com a notícia de que o consumo do vinho cai no mundo todo. Felizmente, no Brasil, isso não está acontecendo. Não necessariamente por estarmos na contramão da história, mas porque somos um país continente, em que a cultura de consumo do vinho é recente e, justamente por ter muitos ainda a atingir, não depende de os jovens darem continuidade ao volume de consumo das outras gerações. Enquanto nos países europeus as médias de consumo per capita chegam perto de 60 litros de vinho ao ano, nossos vizinhos argentinos ficam pouco abaixo de 20 litros; no Brasil, ainda não chegamos a 3 litros de consumo médio anual. É o sinal muito evidente de que somos um mercado que continuará em expansão por muito tempo.

Independentemente disso, as margens apertadas por conta dos altos custos na produção, frente à diminuição do poder de compra, além do aumento na concorrência com o vinho importado (se lá fora o consumo diminui, aumenta o interesse dos países grandes produtores pelo mercado brasileiro, além de terem maior tradição e valor agregado de marca, há fortes incentivos fiscais e de financiamento, mas esse é assunto para outra coluna: quais os impactos na cadeia do vinho brasileiro diante do acordo Mercosul x União Europeia?), e o aumento de um mercado de busca por consumo não só de produtos, mas de experiências, levam os produtores de vinho a diversificarem sua atuação e passarem a investir fortemente no enoturismo. Os últimos estudos apontam que a receita do turismo no mercado de vinho já representa em torno de 25% da cadeia.

A busca pelo Art de Vivre, que faz viajarmos para conhecer o lugar onde os vinhos que consumimos são produzidos e os consumir nestas paisagens, também leva à sobrevalorização de condomínios, para se morar ou como segunda casa, em complexos vitivinícolas. Uma onda mundial em que o vinhedo compõe a paisagem de loteamentos, e a exclusividade pelo vinho produzido do “seu quintal" agrega valor e apelo a projetos assim.

No Brasil, quando pensamos nisso, sempre remetemos a mente ao Rio Grande do Sul, grande referência em produção de vinhos e em turismo enogastronômico cultural. Mas isso está mudando rapidamente. Há produção de vinhos em quase todas as regiões do nosso país: Sul, por óbvio; Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste, maior região brasileira, onde a produção ganhou um impulso gigantesco com uma invenção chamada técnica da dupla-poda, que basicamente inverte o ciclo da planta e passa a se colher as uvas no inverno. Técnica controversa pelo uso abusivo de hormônios sabidamente maléficos para a nossa saúde e meio-ambiente. Nessas novas regiões, a produção vitivinícola já nasce intrinsecamente ligada à exploração turística.

Nisso tudo, o RJ surge com um provável protagonismo nacional. Evidentemente, o fato de o Estado ser o principal destino turístico brasileiro, somado à proximidade da sua principal região produtora de vinhos à capital e litoral, possibilitando o turismo de um dia (o famoso bate-volta), favorece o setor, pois diversifica para além do turismo de praia e cultural. Mas não fica por aqui; há também inovações importantes, que me levam a apostar nesse posto que o RJ passará a ocupar.

Começa por ser o surgimento de uma região vitivinícola, que tem no município de Areal, na serra fluminense, sua capital. Soma-se um relevo natural diferente das demais regiões brasileiras; a serra aqui é composta por montanhas, entregando-nos uma paisagem muito mais atraente que remete às do Velho Mundo. Diante da vocação do Estado e da própria região, o turismo veio antes da produção de vinhos, então já há uma infraestrutura de deslocamento (boas estradas e assistência, estando a menos de hora e meia da capital) e empreendimentos para todos os gostos e bolsos, desde hospedagens familiares até alguns de luxo absoluto, com estrutura, gastronomia e serviços de excelência. Este, em crescimento vertiginoso, são dezenas de projetos em execução, a maioria unindo hotelaria, gastronomia, produção vitivinífera e loteamentos residenciais.

Na produção de vinhos propriamente dita, há muita vontade, investidores dispostos e incentivos governamentais para a consolidação do Rio de Janeiro como mais uma região importante no Brasil. Vinhedos sendo implantados, tanto na técnica tradicional com colheita no verão, quanto para colheita de inverno. E aqui temos uma inovação fantástica: já conseguiram colheita de inverno sem a aplicação de hormônios, abrindo uma nova perspectiva para o futuro. Criaram a AVIVA (Associação dos Produtores de Uvas Vitis Vinífera da Serra do Rio), que já conta com mais de 40 associados. Claro que ainda levará um tempo para termos acesso a grandes exemplares, pois isso está diretamente relacionado tanto ao conhecimento e experiência, como à idade das vinhas, que, quando jovens, geram frutas mais pobres. Mas é visível que será uma caminhada muito interessante de se acompanhar, e a qualidade e paixão dos envolvidos são a garantia do sucesso.

Vista das montanhas da serra fluminense de Areal, a capital do vinho no RJ - Foto: Diego Baptista
Cave submarina no litoral de Maricá, projeto da Universidade Livre do Vinho.

Além disso, foi fundada a primeira Universidade Livre do Vinho brasileira, um impulsionador do setor, qualificando profissionais para atuarem na cadeia, fazendo pesquisa para desenvolver o setor na viticultura e vinicultura, implantando vinhedos experimentais para a busca de varietais que melhor se adaptem ao território e instalando estruturas para o élevage dos vinhos em diferentes condições, desde dentro de montanhas até no fundo do mar. Iniciativa do Município de Maricá, cidade litorânea ao norte de Niterói, que pretende se tornar a grande cave de guarda de vinhos do RJ.

Eu saio tão impressionado da minha visita à Areal e região, que retornarei em breve com a Kely (minha mulher) para desfrutarmos da estrutura, das paisagens, do acolhimento desse povo tão carinhoso e, claro, dos vinhos produzidos aqui, que não abrirei mão de acompanhar. Afinal, visitar regiões consolidadas é possível em todo o mundo, mas onde podemos fazer parte do nascimento de uma região produtora de vinhos?

O gaúcho Leonardo Cury é o Reitor da Universidade Livre do Vinho. - Foto: Diego Frigo
Borgo del Vino Hotel e Vinícola, empreendimento de luxo, com loteamento residencial, situado em Areal / RJ - Foto: Site do empreendimento

* Cristian Silva é Queijista, fundador e curador da Casa Vivá, Jurado do Prêmio Queijo Brasil, Mundial do Queijo, World Cheese Awards e Concurso do Queijo Artesanal do Rio Grande do Sul, sócio da Sensory Experience e especialista em vinhos naturais e Vinhateiro da Vivá Vinhos. cristian.a.silva@me.com

@cristianavilasilva / @casaviva.br / @vivavinhosnaturais