Artes Visuais

JOAQUIM DA FONSECA - AQUARELA E MEMÓRIA PÚBLICA

JOAQUIM DA FONSECA - AQUARELA E MEMÓRIA PÚBLICA

Cézar Prestes* - Foto: Eduardo Carneiro
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     Aos 90 anos, o artista, ilustrador e professor Joaquim da Fonseca se consolida como uma das presenças mais ativas e singulares da aquarela brasileira. Seu percurso, iniciado no pampa de Alegrete e amadurecido entre Porto Alegre e o Exterior, resulta em uma obra que hoje integra acervos de instituições públicas de referência, como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), o Museu Nacional de Belas Artes, o Paço Municipal de Porto Alegre e espaços culturais universitários que preservam parte essencial da arte gaúcha dos séculos XX e XXI.

     Formado pelo Instituto de Artes da UFRGS e mestre pela Syracuse University, Joaquim construiu uma trajetória híbrida – artista, ilustrador, professor e pesquisador do desenho – que se desdobra em centenas de aquarelas e cadernos de viagem. Mas é sobretudo no encontro entre cidade e paisagem que seu trabalho alcança maturidade plena. Com vivência e olhar para a Porto Alegre antiga – ele, um morador à frente da Ponte de Pedra, ponto histórico da Capital – tem se mantido atento às margens do Guaíba, às esquinas silenciosas, aos telhados que sobrevivem ao tempo, aliando precisão gráfica à delicadeza de seus registros artísticos. A cidade, em suas pinturas, não é cenário: é organismo vivo, tecido afetivo e arquivo de luz.

Foto: Divulgação
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    Nos últimos anos, Joaquim voltou-se também à Serra Gaúcha, especialmente à região de Gramado, onde encontrou novas inflexões para sua paleta. Ali, o longevo artista experimentou o contraste entre névoas densas e cores filtradas, registrando igrejas, pontes, casas, animais e morros, caminhos entre a arquitetura singular da imigração europeia. A Serra surge como contraponto poético a Porto Alegre – se a Capital lhe oferece ritmo urbano e transparências, Gramado lhe devolve horizonte íntimo e silêncio.

     Atualmente, Joaquim continua produzindo frequentemente em seu ateliê no Centro Histórico, em meio a pastas e cadernos abertos sobre a mesa, recurso para mostrar e revisitar memórias, caminhando, dessa forma, com a calma de quem observa seu interior e passado antes de pintar. Contudo, seu gesto permanece jovem, rápido, decidido, leve. A aquarela, que tantos artistas encaram com cautela, em suas mãos se torna linguagem natural, quase como a vital respiração.

     Mais que um cronista visual, Joaquim da Fonseca é guardião de paisagens. Seu legado, preservado por instituições públicas, pesquisadores e novas gerações de artistas, reafirma o valor do olhar lento em tempos de urgência. Desse modo lembra que a arte, quando verdadeira, continua a amadurecer mesmo depois dos 90 anos.

Foto: Divulgação
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(*) Cézar Prestes, gestor cultural, marchand e curador. Teve atuações como Secretário de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, diretor do Departamento de Patrimônio Histórico, Museus e Arquivos do RS, Museu de Arte do RS Ado Malagoli (MARGS), diretor e curador do Centro Cultural Aplub e das suas galerias Grafite e Cézar Prestes Artte. Entre suas ações, como diretor do MARGS, realizou a exposição Arte na França, que atraiu 37 mil visitantes do Brasil e do exterior.

@cezarpreste