Já contei nesta coluna que o meu caminho nos vinhos começou pelos argentinos e chilenos, aliás o mesmo caminho da maioria dos bebedores do nosso país, em especial gaúchos e gaúchas. Também, da minha decepção inicial ao conhecer os vinhos brasileiros, que buscavam - maioria ainda o faz - o mesmo perfil dos nossos vizinhos que dominam o mercado, aquela padronização de sabores e sensações ditados por potência e maturez, álcool e madeira.
Quando falo que o objetivo nas minhas vinificações é a busca por vinhos autênticos brasileiros, há uma crítica explícita: a compreensão de que a indústria brasileira está longe de ter autenticidade e de expressar a riqueza que a nossa terra, clima e cultura tem! Fazer vinho brasileiro parecido com o de outros países já seria um equívoco, maior ainda tentar a mesma padronização que leva diversos países a serem parecidos, ou até impossíveis de se diferenciar, tudo porque o tal do mercado gosta disso!
Felizmente o movimento (ou revolução?) mundial de quebra desses padrões estabelecidos como os parâmetros de qualidade também chegou aqui! O que há alguns anos se resumia à um pequeno grupo de entusiastas, que testavam diversas possibilidades, disponibilizando ao mercado algumas maravilhas engarrafadas e muitas outras com defeitos evidentes, construindo pré-conceitos negativos às vinificações artesanais e naturais, hoje já se apresenta espalhada em quase todas as regiões produtoras, contando com artesãos, negociantes e industriais com a convicção de produzir vinhos que expressem nosso terroir, vinhos autênticos brasileiros.
Prova disso é o resultado do Merano Wine Festival deste ano! Ele acontece na comuna que dá o nome ao evento, no Alto-Ádige, norte da Itália, e é um dos guias de maior prestígio da Europa, premiando apenas excelência com procedência! Qualidade com conteúdo. Pela primeira vez, os olhos dos organizadores e críticos avaliadores se voltaram ao Brasil e, durante três meses, avaliaram mais de 200 vinhos produzidos aqui, resultando em 19 vinhos reconhecidos com a qualidade Rosso, medalha equivalente à Prata, e 10 vinhos que receberam a medalha Gold, reservada apenas à rótulos de excelência! Destes 10, 5 deles são vinhos de vinificação natural, feitos apenas de uvas, sem nenhum aditivo enológico, a mais pura expressão do que a natureza brasileira carrega em seus frutos!
Tive a honra de ter dois vinhos meus premiados, Gold para o Traminer e Rosso para o Corte Bordalês, e o privilégio de participar do evento e receber as premiações dos brasileiros e das brasileiras! Mais importante do que as medalhas em si, é o reconhecimento pelo Velho Mundo de que estamos produzindo vinhos diferentes dos deles, mas de qualidade tão alta quanto, com expressões e nuances que nos tornam tão únicos quanto os deles são, e que, por isso, valem à pena serem bebidos. Parece que nisso o Brasil começou a encontrar o seu caminho, a sua identidade. E isso é lindo demais!
* Cristian Silva é especialista em vinhos naturais, vinhateiro da Vivá Vinhos, fundador e curador da Casa Vivá, queijista e jurado do Prêmio Queijo Brasil, Mundial do Queijo e World Cheese Awards. cristian.a.silva@me.com
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