Onne Fashion Talks

MODA EM TRANSIÇÃO: INOVAÇÃO, CONSCIÊNCIA E FUTURO

MODA EM TRANSIÇÃO: INOVAÇÃO, CONSCIÊNCIA E FUTURO

Madeleine Müller* - Foto: Carlos Sillero
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     A moda nunca foi apenas sobre roupas. Ela é reflexo da sociedade, dos comportamentos, da tecnologia e dos desejos que nos movem. Em 2025, vimos a indústria se reinventar diante de desafios globais, instabilidade econômica e geopolítica, dança das cadeiras nas grandes marcas, mudanças no comportamento do consumidor, além da pressão crescente por sustentabilidade e inovação digital. Nesse quesito, inclusive, tudo ficou rápido, urgente, com pressa...já estamos no final do ano, quase nos despedindo, alguns fazendo o balanço, outros repensando seus negócios e como seguir relevante num segmento tão complexo e desafiador como a moda.

Foto: Geradas por IA
Ultra realismo no editorial de moda feito por IA e inspirado no estilo do fotógrafo Steven Meisel gera controvérsias - Foto: Geradas por IA
Foto: Geradas por IA

   Some-se a isso a inovação tecnológica no design, que está transformando a moda em uma experiência interativa e personalizada, com algoritmos (sim, IA em processos criativos e produtivos), criando coleções com base em dados de comportamento e estilo, e ainda a busca por experiências de compra imersivas e híbridas. É inegável que isso está revolucionando a criação de moda ao oferecer ferramentas poderosas para personalização, previsão de tendências e automação nos processos, mas também levanta preocupações sobre originalidade e dependência tecnológica. Nas matérias-primas, o interesse crescente por peças que regulem temperatura, monitorem saúde e se adaptem ao ambiente, já emergem nas buscas dos consumidores. Muito “Black Mirror” para alguns, realidade festejada por outros que enxergam essa transição da moda em vários domínios, deixando de ser apenas expressão estética para se tornar estratégia, ciência e manifesto cultural. Contudo, ainda persistem os desafios éticos, pois o uso de IA para criar imagens e coleções levanta questões sobre direitos autorais, apropriação de estilos e transparência na autoria. Precisamos entender que, quando uma IA gera uma imagem ou coleção de moda, ela pode estar se baseando em milhares de referências visuais, muitas delas protegidas por direitos autorais. Isso levanta questões como:

-A IA está copiando ou apenas se inspirando?

-Quem detém os direitos da criação final: o usuário que deu o comando, o desenvolvedor da IA ou os artistas cujas obras foram usadas como base?

-É possível proteger legalmente uma peça criada por IA?

     Esse debate está em andamento em várias áreas criativas, incluindo moda, arte e design gráfico. Apesar disso, a IA não deve substituir os criadores, mas ampliar sua capacidade de imaginar, testar e inovar. A capacidade de sentir (ainda) é só nossa. As marcas que souberem usar as ferramentas equilibrando tecnologia com sensibilidade humana, e que consigam incluir acessibilidade com ética e responsabilidade, serão as protagonistas da moda nos próximos anos.

 

     Agora, com os olhos voltados para 2026 e além, o setor se prepara para uma nova era - mais inteligente, sensorial e emocional, dizem as pesquisas dos principais portais. Será? Nos últimos anos, o Brasil se tornou terreno fértil para a chegada e a expansão de grandes redes internacionais de fast fashion e ultra fast fashion, com movimentos sintomáticos: de um lado, consumidores vibrando com a variedade, o preço baixo e o status associado a usar uma marca global; de outro, a consciência de que esse modelo de negócio está no centro de debates urgentes sobre sustentabilidade, direitos trabalhistas e padrões de consumo mais responsáveis. Não se trata aqui de vilanizar o acesso a roupas de preço mais baixo, afinal, em uma economia marcada pela concentração de renda e pela alta no custo de vida, democratizar a moda é um argumento forte, importantíssimo, mas não se trata só disso. O problema está no discurso de “acessibilidade” desvinculado das consequências sociais e ambientais.  O consumidor precisa entender que o preço baixo pode estar custando alto para quem está invisível na cadeia. Nesse sentido, as principais tendências de comportamento que impulsionam o setor incluem:

-Consumo com propósito: A busca por marcas éticas, sustentáveis e transparentes, que refletem valores, causas e preocupação com excessos, descartes, exploração laboral etc.;

-Moda emocional: Roupas que promovem bem-estar, conforto e expressão pessoal, o famoso “sentir-se bem em sua própria pele”, independente da tendência da vez;

-Inclusão radical: Gênero, corpo, cultura e idade deixam de ser barreiras. A moda é (ou deveria ser) feita para todos;

-Minimalismo funcional: Menos peças, mais significado. O guarda-roupa mais enxuto, visto como curadoria de identidade e expressão pessoal.

 

Foto: Geradas por IA

(*) Madeleine Müller, stylist há mais de 25 anos e produtora de moda. Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade Fernando Pessoa (UFP-Portugal); pósgraduada em Moda, Consumo e Comunicação (PUC-RS) e graduada em Direito (PUC-RS). É professora no Design de Moda da ESPM-POA, autora do livro “Admirável Moda Sustentável: vestindo um mundo novo”, ativista do movimento Fashion Revolution. Acredita numa moda responsável e ética, regenerativa de sistemas e agente de transformação social.

madeleine.muller@gmail.com

@madi_muller